domingo, 5 de abril de 2020

Constelação Familiar e Sistêmica: Como a Constelação pode ajudar a (re) pensar o tema racismo na sociedade brasileira?


A realidade precária à qual a população negra e pobre do Brasil é submetida é um reflexo da mentalidade colonial que ainda impera no país. Apesar de nossa constituição multicultural, ainda não conseguimos estabelecer um mínimo de igualdade entre os grupos culturais que, juntamente com o europeu, são a base de nossa formação identitária nacional: negros e indígenas.
Diariamente presenciamos situações de preconceito explícito, muitas delas em rede nacional e naturalizadas pela população (incidentes em partidas de futebol são, por exemplo, bem recorrentes). Evidências da desigualdade racial presente na estrutura de nossa sociedade podem ser observadas em espaços públicos, onde pretos e pardos são minorias em cargos de gerência.
Por trás dos números alarmantes sobre a presença e condições de vida dos negros no Brasil (passados mais de cem anos do fim da escravidão, a população negra continua vivendo em condições precárias, sem acesso a redes de esgoto e tratamento de água e resíduos, frequentemente em favelas e zonas periféricas), há uma questão ética e moral que abala qualquer pretensão democrática: não existe democracia, de fato, quando não há políticas públicas sólidas que garantam o acesso de todos os cidadãos a uma vida digna.
Parece-me muito relevante a concepção teórica proposta por intelectuais latino-americanos que distingue colonialismo de colonialidade. Para o grupo Modernidad/ Colonialidad – formado por intelectuais latino-americanos atuantes em Universidades de todo o continente – colonialismo refere-se ao período histórico marcado pelo domínio europeu; já a colonialidade refere-se ao estado de dependência e subjugação a que foram submetidos os países ao deixarem de ser colônia. Dessa situação originam-se três situações: colonialidade do poder, do saber e do ser. Para reverter essa realidade seria necessário adotarmos outras práticas nas relações historicamente marcadas pela subalternidade e sujeição, reforçadas pelo sistema escolar, acesso à saúde de qualidade e garantia incondicional de direitos a todos os cidadãos.
É possível ampliar ainda mais o debate quando analisamos o lugar dado à mulher negra em nossa sociedade: base da pirâmide social atrás dos homens negros, das mulheres brancas e dos homens brancos. Uma contribuição ao debate sobre essa problemática no Brasil vem sendo feita por intelectuais feministas negras, como Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo, autoras de Pequeno Manual Antiracista (Editora Companhia das Letras) e Becos da Memória (Editora Pallas), respectivamente.
A naturalização de atitudes que alimentam a opressão e a violência a que são submetidos os negros em nosso país requer uma mudança de atitudes que, em meu entendimento, só é possível com muito investimento em educação. Refiro-me a uma educação libertadora, nos termos de Paulo Freire, uma educação capaz de descolonizar mentes. Um aliado nessa mudança são os ensinamentos de Bert Hellinger sobre as três leis que regem as relações familiares mas que podem se estender a outros vínculos. São elas: a hierarquia, o pertencimento e o equilíbrio.
A lei da hierarquia é definida pela ordem de chegada. Frequentemente, em episódios sobre preconceito e racismo, vemos que há um total desconhecimento sobre a nossa história enquanto sociedade multicultural. Por outro lado, a história divulgada e ensinada nas escolas e difundidas através dos livros didáticos, a “história oficial”, é marcada por uma série de silenciamentos. Seria necessário resgatarmos o outro lado da narrativa. Um equívoco frequente sobre esse “recorte na narrativa histórica” se explicita na generalização que é feita sobre a África no Brasil. O brasileiro, em sua maioria, refere-se ao continente africano como sendo um único país, ignorando os muitos países que o compõem e uma infinidade de idiomas que expressam a riqueza de sua cultura.
A compreensão sobre nossa origem afro poderia ser facilitada se déssemos um lugar, de fato, para a contribuição da África em nossa sociedade (para além do aspecto exótico). Reconhecer que nosso idioma e nosso cotidiano são constituídos pela contribuição dos homens e mulheres que foram arrastados de seu lugar de origem e violentados de inúmeras formas, atenderia ao disposto na segunda lei de Hellinger: o pertencimento.
A terceira lei de Hellinger, o equilíbrio, trata de equidade, senso de justiça e equivalências em trocas em geral. Por essa razão, complementa a mudança almejada nesse texto para a eliminação do racismo no Brasil
Tudo isso pode parecer utópico, é possível. Sempre sonhei com um mundo mais justo para todos os indivíduos e sempre tive certeza que o amor e o respeito – tal qual proposto na Constelação Familiar criada por Bert Hellinger - são a chave para a mudança que necessitamos.




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