A realidade precária à qual a população negra e pobre do Brasil é submetida é um reflexo da mentalidade colonial que ainda impera no país. Apesar de nossa constituição multicultural, ainda não conseguimos estabelecer um mínimo de igualdade entre os grupos culturais que, juntamente com o europeu, são a base de nossa formação identitária nacional: negros e indígenas.
Diariamente presenciamos
situações de preconceito explícito, muitas delas em rede nacional e
naturalizadas pela população (incidentes em partidas de futebol são, por
exemplo, bem recorrentes). Evidências da desigualdade racial presente na
estrutura de nossa sociedade podem ser observadas em espaços públicos, onde pretos
e pardos são minorias em cargos de gerência.
Por trás dos
números alarmantes sobre a presença e condições de vida dos negros no Brasil
(passados mais de cem anos do fim da escravidão, a população negra continua
vivendo em condições precárias, sem acesso a redes de esgoto e tratamento de
água e resíduos, frequentemente em favelas e zonas periféricas), há uma questão
ética e moral que abala qualquer pretensão democrática: não existe democracia,
de fato, quando não há políticas públicas sólidas que garantam o acesso de
todos os cidadãos a uma vida digna.
Parece-me
muito relevante a concepção teórica proposta por intelectuais latino-americanos
que distingue colonialismo de colonialidade. Para o grupo Modernidad/ Colonialidad – formado por intelectuais latino-americanos
atuantes em Universidades de todo o continente – colonialismo refere-se ao
período histórico marcado pelo domínio europeu; já a colonialidade refere-se ao
estado de dependência e subjugação a que foram submetidos os países ao deixarem
de ser colônia. Dessa situação originam-se três situações: colonialidade do
poder, do saber e do ser. Para reverter essa realidade seria necessário
adotarmos outras práticas nas relações historicamente marcadas pela
subalternidade e sujeição, reforçadas pelo sistema escolar, acesso à saúde de
qualidade e garantia incondicional de direitos a todos os cidadãos.
É possível
ampliar ainda mais o debate quando analisamos o lugar dado à mulher negra em
nossa sociedade: base da pirâmide social atrás dos homens negros, das mulheres
brancas e dos homens brancos. Uma contribuição ao debate sobre essa
problemática no Brasil vem sendo feita por intelectuais feministas negras, como
Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo, autoras de Pequeno Manual Antiracista (Editora Companhia das Letras) e Becos da Memória (Editora Pallas),
respectivamente.
A
naturalização de atitudes que alimentam a opressão e a violência a que são
submetidos os negros em nosso país requer uma mudança de atitudes que, em meu
entendimento, só é possível com muito investimento em educação. Refiro-me a uma
educação libertadora, nos termos de Paulo Freire, uma educação capaz de
descolonizar mentes. Um aliado nessa mudança são os ensinamentos de Bert Hellinger
sobre as três leis que regem as relações familiares mas que podem se estender a
outros vínculos. São elas: a hierarquia, o pertencimento e o equilíbrio.
A lei da
hierarquia é definida pela ordem de chegada. Frequentemente, em episódios sobre
preconceito e racismo, vemos que há um total desconhecimento sobre a nossa
história enquanto sociedade multicultural. Por outro lado, a história divulgada
e ensinada nas escolas e difundidas através dos livros didáticos, a “história
oficial”, é marcada por uma série de silenciamentos. Seria necessário
resgatarmos o outro lado da narrativa. Um equívoco frequente sobre esse
“recorte na narrativa histórica” se explicita na generalização que é feita
sobre a África no Brasil. O brasileiro, em sua maioria, refere-se ao continente
africano como sendo um único país, ignorando os muitos países que o compõem e
uma infinidade de idiomas que expressam a riqueza de sua cultura.
A
compreensão sobre nossa origem afro poderia ser facilitada se déssemos um
lugar, de fato, para a contribuição da África em nossa sociedade (para além do
aspecto exótico). Reconhecer que nosso idioma e nosso cotidiano são
constituídos pela contribuição dos homens e mulheres que foram arrastados de
seu lugar de origem e violentados de inúmeras formas, atenderia ao disposto na
segunda lei de Hellinger: o pertencimento.
A terceira
lei de Hellinger, o equilíbrio, trata de equidade, senso de justiça e
equivalências em trocas em geral. Por essa razão, complementa a mudança
almejada nesse texto para a eliminação do racismo no Brasil
Tudo isso
pode parecer utópico, é possível. Sempre sonhei com um mundo mais justo para
todos os indivíduos e sempre tive certeza que o amor e o respeito – tal qual
proposto na Constelação Familiar criada por Bert Hellinger - são a chave para a
mudança que necessitamos.
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